2.13.2009

Segura o Tchan - Gera Samba [É o Tchan!]

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Pau que nasce torto
Nunca se endireita

Genial! Temos aqui uma brilhante conclusão embasada em profundos estudos biológicos. Quem sou eu, uma mera mortal rejeitada pelo Telecurso 2000, pelo Instituto Universal Brasileiro e pelo Mackenzie, para questionar uma afirmação do sábio Beto Jamaica?
Nesse trecho o compositor introduz a linha de raciocínio que dá substrato a toda a canção. Essa brilhante observação acerca da flora amazônica adquire função cabalística na obra. Pode funcionar como uma metáfora da condição humana na sociedade da década de 90 e como preâmbulo da geração 2.0. Essa expressão foi tomada pelas camadas populares e difundida no mundo todo como sendo um dos infalíveis ditados populares provenientes de avós artesãs.
O que Beto Jamaica tenta mostrar é uma espécie de darwinismo ortodoxo social: o pau nasce torto para o lado errado e, justamente por esse infortúnio inicial, não tem um respaldo psicobiológico que permita qualquer mudança comportamental. Assim, o famigerado pau acaba não resistindo à pressão do meio.

Menina que requebra
Mãe pega na cabeça

Agora estamos diante de uma das maiores ambigüidades da música popular brasileira do final do século XX. Não pude identificar a que cabeça se refere o autor dentre as três opções possíveis. De fato, isso se deve à genialidade de Beto Jamaica que, diga-se de passagem, deixa Chico Buarque no chinelo.
Beto tenta induzir o público a refletir com mais profundidade sobre questões onipresentes da sociedade, como a violência e o tabu do sexo. Além do mais, traz uma importante contribuição ao processo de emancipação da mulher quando faz alusão ao fato de que uma mulher pode pegar na cabeça que quiser mesmo sendo uma mãe de família. Complementando o raciocínio, também é possível citar o apoio de Beto Jamaica à liberdade de expressão feminina quando diz que quem requebra é a menina. O que, seguindo os preceitos da teoria da Análise do Discurso, é um grande passo em direção ao fim do preconceito e tratamento pejorativo dirigidos a dançarinas de boate e piriguetes.

Domingo ela não vai
Vai, vai
Domingo ela não vai não
Vai, vai vai

Neste ponto Beto Jamaica reitera o apoio dado à emancipação da mulher e critica sua submissão ao homem. O uso da palavra “domingo” remete a uma tradição enraizada na mentalidade popular brasileira. Domingo é dia de missa de manhã, almoço com a família, momentos de comoção com Gugu Liberato e aquisição de cultura com “Fantástico“. Esse dia da semana existe justamente para reforçar tais tradições. Assim, é possível dizer que o grupo “Gera Samba” [como um dia se chamou o mundialmente conhecido “É o tchan!”] é transgressor, está a frente de seu tempo e anunciou na década de noventa como seria a sociedade hoje. Pode-se destacar também um tributo às dançarinas do grupo, ambas mulheres oriundas de famílias tradicionalistas e de baixo poder aquisitivo. Carla Perez e Débora Brasil enfrentaram a sociedade patriarcal e a família anacrônica para que pudessem alcançar um sonho.
O trecho “domingo ela não vai” apresenta também certa ambigüidade, corroborando a genialidade de Beto Jamaica. Não é possível saber se no domingo “ela” não vai seguir as tradições ou não vai comparecer à gafieira. De ambos os modos o que importa é que “ela” se recusa a fazer o que lhe impõem.

Segure o tchan
Amarre o tchan
Segure o tchan
tchan tchan tchan tchan

Agora chegamos ao ápice da música. É nesse momento que Beto Jamaica evidencia sua preocupação com a paz mundial. O vocábulo “Tchan” nada mais é do que a maneira original e criativa encontrada pelo dialeto baiano para se referir ao trágico episódio da Bomba de Hiroshima. O eu lírico da canção faz um apelo às autoridades pela paz mundial, ele deseja que o instinto destrutivo dos homens seja controlado o mais rápido possível. Tal desejo é ressaltado pelo uso dos verbos “segure” e “amarre” e pela repetição da palavra “tchan”. Beto tenta deste modo fazer com que a mensagem entre na cabeça do ouvinte e nunca mais saia, garantindo a paz futura e a sobrevivência da humanidade. Ou seja, se hoje estamos aqui vivos e saudáveis é porque Beto Jamaica lutou pelos nossos direitos ainda na década de 90.

Tudo que é perfeito a gente pega pelo braço
Joga ela no meio
Mete em cima
Mete em baixo

Através desses versos Beto ressalta o poder da humanidade. Mas não só o poder de construir grandes artefatos de guerra, como a bomba atômica ou tchan. Faz alusão à força da humanidade, ao poder de continuar viva após grandes catástrofes. Beto diz que o homem é um ser perfeito, que agüenta todas as adversidades, é jogado no meio, é metido em cima e em baixo, e ainda resiste!
É possível identificar também a questão da mulher rebelde, que é jogada no tanque e no fogão, mas ainda tem forças para burlar as regras do marido tirano e ir à roda de pagode e destilar seu charme e formosura de ‘cinderela baiana‘.

Depois de nove meses
Você vê o resultado

O que inicialmente parece uma celebração à vida, à concepção de um bebê, ao futuro da sociedade, na verdade é algo bem mais profundo e reflexivo. O poeta volta à questão da Bomba de Hiroshima neste ponto da música. Porém, como sempre, Beto mostrou sua genialidade ao fazer um paralelo entre as guerras e as mulheres grávidas. Todos os bebês nascidos na região atacada apresentam algum tipo de anomalia, como o gosto por pagode erótico e aspartame. Além disso, o compositor extrapola sua realidade social e tenta alertar os pais para o que acontece com seus filhos em outras regiões do país. Fica claro na canção que Beto faz alusão ao processo de despirocamento sofrido pelos jovens provincianos na cidade de São Paulo, principalmente na Rua Augusta. Depois de cerca de nove meses freqüentando a região todos os jovens se tornam emos e passam a fazer parte da grande massa emocional que se aglomera na frente do famoso Vitrine nas noites de sexta.

Esse é o geram samba
Arrebentando no pedaço
Joga ela no meio
Mete em cima
Mete em baixo

De novo o grande compositor e poeta nos surpreende com mais uma crítica social. Para fechar com chave de ouro, Beto critica a burocracia da publicidade moderna. Nesse trecho a banda faz sua própria propaganda, gerando uma grande discussão acerca do papel da publicidade e seu lugar nos meios de comunicação de massa. Novamente Beto burla as regras e tira a propaganda dos intervalos para colocá-la na própria música. Além disso, a música mostra claramente a posição dos artistas baianos em relação a esta classe: publicitários não servem para nada e os cursos de comunicação social são pura perda de tempo e de dinheiro. Aliás, Beto insinua que os alunos desses cursos são os jovens despirocados da Rua Augusta, denúncia absolutamente verdadeira e séria.


Textículo introdutório.

Este blógue foi criado com o intuito de desvendar os mistérios de músicas que fazem parte da cultura popular brasileira através de análises literárias e semiótico-carnais das letras.

Créditos do nome: Hiro.