7.29.2009

Lembranças - Kátia Cega

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A canção da genial poetisa Kátia Cega, também conhecida como Titia Quei-Ci, aparentemente versa sobre um romance qualquer - não obstante, profundo - daqueles facilmente encontrados nos produtos audiovisuais oriundos do México, os famosos dramalhões. Em resumo, um observador desatento diria que nada mais é do que uma história de um amor falido. Porém, uma análise mais profunda e sensível desta obra-prima revela detalhes dantescos de uma vida que poderia ser, até mesmo, a sua. Trata-se de uma bela história de amor materno, aquele amor teoricamente indelével e transcendental. O objetivo desse texto é justamente esmiuçar esse amor oculto que permeia os gemidos de Titia Quei-Ci e, de certo modo, tentar compreender a dor de nossa diva ao contar sua história.
O eu-lírico da canção é a própria Kátia Cega, que utiliza-se do poder de seu terceiro olho de Rá para camuflar sua triste história por trás de versos de amor. Confesso que precisei passar seis meses no cume do Monte Everest injetando Baygon na veia para atingir o âmago da canção, o que foi absolutamente válido e necessário para meu amadurecimento intelectual e emocional. Assim, pude concluir que a música é, na verdade, uma história de uma família travesti contada pela que mais sofreu com o acontecido, nossa querida Katita Cegueta.
Na região onde as travequinhas ganhavam suas dinheiras havia uma tradição muito forte, quase uma seita religiosa. As travestis mais velhas e experientes escolhiam a dedo uma novata e adotavam. Tal adoção tinha uma função sociocultural de importância incomensurável para o mundo: a sobrevivência dos segredos da vida traveca. Madame Kátia, sendo a traveca mais bem-relacionada, feminina e absoluta da Lagoa das Vagaranhas do Leste [vilarejo que serviu de palco para o drama] adotou a caloura com maior potencial para ser o novo Terceiro Olho de Rá da Paróquia, o título mais alto da hierarquia travesti e que já pertencia a Kátia. Com o intuito de preservar a privacidade de sua filha a nossa poetisa optou por não citar seu nome. Vamos chamá-la, ficticiamente, de Suely-Vi.
Após a adoção tudo corria muito bem entre Titia Quei-Ci e Suely-Vi. Nossas heroínas tinham uma relação de fazer inveja a qualquer sandy-carente-de-província-distante. Kátia mostrava a Suely-Vi tudo o que era necessário saber sobre a vida, ensinando-lhe segredos como hidratação de Kolene, banho de Monange com Leite de Rosas, infusão de Vinólia Spray, salada de Avon com Maxwell e Revlon, encruzilhada de Taiff, chá de Corega Tabs etc. No entanto, o destino deu-lhes um golpe cruel; mãe e filha desentenderam-se por causa de um bofescândalo da Vila Feana [vilarejo vizinho]. Suely-Vi, após uma noite de furação com o tal cafuçu, apaixonou-se perdidamente. Como boa filha que até então era, apresentou o bofe para sua mãe Quei-Ci. Tudo corria muito bem entre o casal até que o destino armou uma terrível armadilha; o bofe de Suely-Vi ficou louco-da-neca por Katita. A mãe-traveca, cheia de dÿgnidade, recusou o cafuçu com toda a força de sua peruca. Mas o cafuçu insistiu loucamente até que Suely-Vi presenciou uma de suas investidas e teve um surto psicótico deveras periclitante e, após se deserdar e prometer seguir seu rumo em algum lugar distante, tentou matar Kátia Cega com um vibrador embebido em cicuta. Nunca mais alguém teve notícias de Suely-Vi.
Segue a análise dos versos:

Já faz tanto tempo
Que eu deixei
De ser importante
Pra você

Kátia, mesmo mutilada pela dor, tem total noção da realidade que a cerca, sabe que seu elo de ligação com a filha travesti foi brutalmente cortado pelas forças do destino. O que mais machuca Titia Quei-Ci, até então, é saber que sua filha travesti já não dá importância para a sua sabedoria e seu status de Terceiro Olho de Rá da Paróquia. Dizem as más línguas que Suely-Vi compartilhou os segredos com heterossexuais recalcados e, como se não bastasse, espalhou impropérios sobre sua ex-mãe.
Mesmo sabendo qual a realidade que a rodeava, pensar sobre o que se passava no coraçãozinho paola-bracho de sua filha fez com que Kátia perdesse a noção do tempo e a receita falsificada do Kolene faixa preta. Assim, Katita trancou-se em casa por dias e mais dias cultivando sua dor anal e seu desgosto, chegando a pensar que anos se passaram do lado de fora do quarto.

Já faz tanto tempo
Que eu não sou
O que na verdade
Eu nem cheguei a ser

Em resposta a tudo o que aconteceu o psicológico de Kátia Cega transformou-se num grande caos. Nossa diva já não sabia mais o que pensar, o que fazer, quem ser, qual relaxante capilar usar. No momento Quei-Ci nada mais era do que uma traveca mal-montada com uma filha auto-deserdada. A situação periclitante gerou uma crise de identidade prochasquiana, levando Kátia a negar sua própria história, deixando de ser travesti. Aliás, o que ocorreu foi bem pior do que apenas deixar de ser, Katita passou a pensar que na verdade nunca havia sido uma boa traveca. O sofrimento foi tão grande que o eu-lírico, além de negar sua própria identidade, jogou fora todos os seus potes de Kolene e se transformou numa heterazinha insossa e infeliz.

E quando parti
Deixei ficar
Meus sonhos
Jogados
Pelo chão
Palavras perdidas
Pelo ar
Lembranças contidas
Nesta solidão

Após a peremptória decisão de deixar de ser travesti Katita revolucionou sua vida. Desfez-se de todos os seus cosméticos, jogou a peruca no bueiro e enterrou a coleção de cílios postiços junto com o vibrador envenenado em uma encruzilhada de Divinolândia. No entanto, a decisão mais importante ainda estava por vir: Kátia largaria as esquinas de Lagoa das Vagaranhas do Leste. A materialização deste abandono ocorreu numa bela cerimônia entre Titia Quei-Ci e os pedreiros da região, quando o troféu de Terceiro Olho de Rá da Paróquia foi cimentado à sua esquina preferida. Assim nossa heroína pôde partir para sua nova vida, sem os resquícios de sua desgraça, que deixou pelo chão junto com os sonhos que um dia foram seus.
Kátia Cega foi morar em uma cidade grande e distante, somente ela e sua nova convicção: a heterossexualidade. Conseguiu um emprego de funcionário público, deixou a barba crescer e passou a se chamar Claudionor. Não fazia nada além de trabalhar e beber, não tinha amigos e não se maquiava mais; e pensava viver bem assim. Porém, Katita sentiu-se livre de seus fantasmas por um curto período de tempo. As assombrações começaram a surgir diante de seus olhos gradativamente até que ela se deu conta de que o passado jamais a abandonaria. Todas as noites, ao deitar a cabeça no travesseiro, as imagens de seu glorioso passado desfilavam em sua cabeça. Estava nossa diva, novamente, diante de seu estojo de maquiagem com oitenta e sete tons em degradê, de sua peruca embebida em Kolene, de sua coleção de lingerie Victoria’s Secrets, das esquinas de Lagoa das Vagaranhas do Leste e todas as alegrias de uma vida travesti. Sua esquina preferida ficava perto da construção que empregava os pedreiros mais garbosos e galantes da região, cafuçus cheios de energia que passavam os dias elogiando a beleza de Katita através de gritos roucos e másculos. Assim, o eu-lírico começou a sentir a solidão pungente que seu refúgio na heterossexualidade causava, sem as amigas travestis e os gritos dos bofes.

Tentei ser feliz
Ao lado seu
Fiz tudo que pude
Mas não deu

Aqui o eu-lírico afirma a importância de se ter uma mãe no mundo travesti através de seus próprios sentimentos para com sua filha. Kátita quis ser uma boa tutora, tentou dar à sua pupila-traveca tudo o que possuía de melhor e mais bonito, foi capaz de dividir até mesmo sua lingerie Victoria’s Secrets e seu Kolene ionizado. Em troca de tanto apoio e carinho Titia Quei-Ci não exigiu muita coisa, quis apenas ser amada; fez tudo o que pôde para que sua filha desse o mesmo amor que ganhou, mas não aconteceu. Em troca nossa heroína Kátia Cega ganhou uma apunhalada no silicone e sua filha Suely-Vi continuou sendo a criaturinha recalcada e amargurada que havia sido antes de virar travesti e que, na verdade, foi até mesmo nos momentos bonitos da vida com Katita.

E aqueles momentos
Que guardei
Me fazem lembrar
O muito que eu te amei

Apesar de ter se livrado dos resquícios materiais da vida traveca, Titia Quei-Ci ainda conservava as lembranças belas do glamour das esquinas. Sua época de ouro foi vivida junto com sua filha Suely-Vi, época em que tinha o cabelo mais hidratado da paróquia e os cílios postiços mais firmes de Lagoa das Vagaranhas do Leste. Kátia Cega, apesar do brutal rompimento e da tentativa de homicídio, não conseguiu dissociar suas reminiscências belas da vida ao lado de Suely-Vi.

E hoje o silêncio
Que ficou
Eu sinto a tristeza
Que restou
Há sempre um vazio
Em minha vida
Quando relembro nossa
Despedida

Aqui o eu-lírico reitera a solidão causada pela heterossexualidade forjada, quando passou a viver o silêncio mais dilacerante e profundo que alguém pode imaginar. Kátia Cegueta precisava manter-se calada e longe de tudo & todos para sustentar a imagem hetero, tornando-se uma pessoa recalcada e infeliz a ostentar cabelos opacos e quebradiços. Passava os dias sozinha e quieta, mergulhada em suas reminiscências salgadas de lágrimas e amaldiçoando o dia em que deixou de ser mãe e travesti.

Eu já nem me lembro
Quanto tempo faz
Mas eu não me esqueço
Que te amei demais
Pois nem mesmo o tempo
Conseguiu fazer esquecer
Você
Não
Fomos tudo aquilo
Que se pode ser
Meu amor foi mais
Do que se pode crer
E nem mesmo o tempo
Conseguiu fazer esquecer
Você

Temos aqui um dos mais belos refrões da música brasileña; belas e incisivas palavras que têm o poder de contar sucintamente tudo o que se passa no coraçãozinho maltratado de Katita. Em resumo, Katita amava a filha e continua amando, apesar de todos os pesares e das tentativas de aniquilar as lembranças. Além do mais, ela tem total noção de que essa história irá persegui-la pelo resto da vida, optando por desistir de caçar e afugentar fantasmas do passado. Aliás, este trecho é uma armadilha de satanás, pois coloca o eu-lírico numa grande contradição. Katita Cegueta já chegou a acreditar e afirmar com convicção que nunca chegou a ser uma traveca linda e absoluta, mas no trecho em questão a poetisa é traída por suas lembranças que não conseguira destruir e afirma, nitidamente, o seu valor como travesti, algo que não poderia ser apagado nem pela pior desgraça. Katita Cegueta sabe, agora, que o importante é o que importa, e não o resto.

2.13.2009

Segura o Tchan - Gera Samba [É o Tchan!]

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Pau que nasce torto
Nunca se endireita

Genial! Temos aqui uma brilhante conclusão embasada em profundos estudos biológicos. Quem sou eu, uma mera mortal rejeitada pelo Telecurso 2000, pelo Instituto Universal Brasileiro e pelo Mackenzie, para questionar uma afirmação do sábio Beto Jamaica?
Nesse trecho o compositor introduz a linha de raciocínio que dá substrato a toda a canção. Essa brilhante observação acerca da flora amazônica adquire função cabalística na obra. Pode funcionar como uma metáfora da condição humana na sociedade da década de 90 e como preâmbulo da geração 2.0. Essa expressão foi tomada pelas camadas populares e difundida no mundo todo como sendo um dos infalíveis ditados populares provenientes de avós artesãs.
O que Beto Jamaica tenta mostrar é uma espécie de darwinismo ortodoxo social: o pau nasce torto para o lado errado e, justamente por esse infortúnio inicial, não tem um respaldo psicobiológico que permita qualquer mudança comportamental. Assim, o famigerado pau acaba não resistindo à pressão do meio.

Menina que requebra
Mãe pega na cabeça

Agora estamos diante de uma das maiores ambigüidades da música popular brasileira do final do século XX. Não pude identificar a que cabeça se refere o autor dentre as três opções possíveis. De fato, isso se deve à genialidade de Beto Jamaica que, diga-se de passagem, deixa Chico Buarque no chinelo.
Beto tenta induzir o público a refletir com mais profundidade sobre questões onipresentes da sociedade, como a violência e o tabu do sexo. Além do mais, traz uma importante contribuição ao processo de emancipação da mulher quando faz alusão ao fato de que uma mulher pode pegar na cabeça que quiser mesmo sendo uma mãe de família. Complementando o raciocínio, também é possível citar o apoio de Beto Jamaica à liberdade de expressão feminina quando diz que quem requebra é a menina. O que, seguindo os preceitos da teoria da Análise do Discurso, é um grande passo em direção ao fim do preconceito e tratamento pejorativo dirigidos a dançarinas de boate e piriguetes.

Domingo ela não vai
Vai, vai
Domingo ela não vai não
Vai, vai vai

Neste ponto Beto Jamaica reitera o apoio dado à emancipação da mulher e critica sua submissão ao homem. O uso da palavra “domingo” remete a uma tradição enraizada na mentalidade popular brasileira. Domingo é dia de missa de manhã, almoço com a família, momentos de comoção com Gugu Liberato e aquisição de cultura com “Fantástico“. Esse dia da semana existe justamente para reforçar tais tradições. Assim, é possível dizer que o grupo “Gera Samba” [como um dia se chamou o mundialmente conhecido “É o tchan!”] é transgressor, está a frente de seu tempo e anunciou na década de noventa como seria a sociedade hoje. Pode-se destacar também um tributo às dançarinas do grupo, ambas mulheres oriundas de famílias tradicionalistas e de baixo poder aquisitivo. Carla Perez e Débora Brasil enfrentaram a sociedade patriarcal e a família anacrônica para que pudessem alcançar um sonho.
O trecho “domingo ela não vai” apresenta também certa ambigüidade, corroborando a genialidade de Beto Jamaica. Não é possível saber se no domingo “ela” não vai seguir as tradições ou não vai comparecer à gafieira. De ambos os modos o que importa é que “ela” se recusa a fazer o que lhe impõem.

Segure o tchan
Amarre o tchan
Segure o tchan
tchan tchan tchan tchan

Agora chegamos ao ápice da música. É nesse momento que Beto Jamaica evidencia sua preocupação com a paz mundial. O vocábulo “Tchan” nada mais é do que a maneira original e criativa encontrada pelo dialeto baiano para se referir ao trágico episódio da Bomba de Hiroshima. O eu lírico da canção faz um apelo às autoridades pela paz mundial, ele deseja que o instinto destrutivo dos homens seja controlado o mais rápido possível. Tal desejo é ressaltado pelo uso dos verbos “segure” e “amarre” e pela repetição da palavra “tchan”. Beto tenta deste modo fazer com que a mensagem entre na cabeça do ouvinte e nunca mais saia, garantindo a paz futura e a sobrevivência da humanidade. Ou seja, se hoje estamos aqui vivos e saudáveis é porque Beto Jamaica lutou pelos nossos direitos ainda na década de 90.

Tudo que é perfeito a gente pega pelo braço
Joga ela no meio
Mete em cima
Mete em baixo

Através desses versos Beto ressalta o poder da humanidade. Mas não só o poder de construir grandes artefatos de guerra, como a bomba atômica ou tchan. Faz alusão à força da humanidade, ao poder de continuar viva após grandes catástrofes. Beto diz que o homem é um ser perfeito, que agüenta todas as adversidades, é jogado no meio, é metido em cima e em baixo, e ainda resiste!
É possível identificar também a questão da mulher rebelde, que é jogada no tanque e no fogão, mas ainda tem forças para burlar as regras do marido tirano e ir à roda de pagode e destilar seu charme e formosura de ‘cinderela baiana‘.

Depois de nove meses
Você vê o resultado

O que inicialmente parece uma celebração à vida, à concepção de um bebê, ao futuro da sociedade, na verdade é algo bem mais profundo e reflexivo. O poeta volta à questão da Bomba de Hiroshima neste ponto da música. Porém, como sempre, Beto mostrou sua genialidade ao fazer um paralelo entre as guerras e as mulheres grávidas. Todos os bebês nascidos na região atacada apresentam algum tipo de anomalia, como o gosto por pagode erótico e aspartame. Além disso, o compositor extrapola sua realidade social e tenta alertar os pais para o que acontece com seus filhos em outras regiões do país. Fica claro na canção que Beto faz alusão ao processo de despirocamento sofrido pelos jovens provincianos na cidade de São Paulo, principalmente na Rua Augusta. Depois de cerca de nove meses freqüentando a região todos os jovens se tornam emos e passam a fazer parte da grande massa emocional que se aglomera na frente do famoso Vitrine nas noites de sexta.

Esse é o geram samba
Arrebentando no pedaço
Joga ela no meio
Mete em cima
Mete em baixo

De novo o grande compositor e poeta nos surpreende com mais uma crítica social. Para fechar com chave de ouro, Beto critica a burocracia da publicidade moderna. Nesse trecho a banda faz sua própria propaganda, gerando uma grande discussão acerca do papel da publicidade e seu lugar nos meios de comunicação de massa. Novamente Beto burla as regras e tira a propaganda dos intervalos para colocá-la na própria música. Além disso, a música mostra claramente a posição dos artistas baianos em relação a esta classe: publicitários não servem para nada e os cursos de comunicação social são pura perda de tempo e de dinheiro. Aliás, Beto insinua que os alunos desses cursos são os jovens despirocados da Rua Augusta, denúncia absolutamente verdadeira e séria.


Textículo introdutório.

Este blógue foi criado com o intuito de desvendar os mistérios de músicas que fazem parte da cultura popular brasileira através de análises literárias e semiótico-carnais das letras.

Créditos do nome: Hiro.